Liberty Media no MotoGP: Circuitos Citadinos, Dados de Pneus e a “Fórmula 1” das Motos

Marc Márquez e acosta na saída curva 8 da Sprint na Tailândia - Foto oficial MotoGP/Dorna
Marc Márquez e acosta na saída curva 8 da Sprint na Tailândia – Foto oficial MotoGP/Dorna

Retorno do Investimento

A Liberty Media tem metas a cumprir e, para garantir o retorno do seu investimento no MotoGP, está a tentar puxar novos assinantes e novos contratos com o MotoGP.

As alterações têm vindo a ser pequenas, mas estão lá.

No que toca à transmissão televisiva, a disposição dos pilotos durante o hino de cada país que visita foi ligeiramente alterada e a mais recente adição (talvez um pequeno teste) foi a introdução da temperatura interior do pneu, exibida num gráfico de cores.

A KTM, tal como todas as equipas, está ligada à Dorna através de contratos e parcerias e até acordos verbais. Não sabemos ainda se foi obrigada, ou se cedeu essa informação por gentileza, mas foi a única equipa, através da mota de Pedro Acosta, a mostrar tal informação. Ainda não se sabe se foi um teste para apurar se os telespectadores querem realmente essa informação ou se veio para ficar. Teremos de aguardar pelo arranque da próxima época.


Inspiração na Fórmula 1: a exposição dos dados

As equipas não gostaram de ver os seus truques expostos para que os seus concorrentes consigam analisar o que cada mota faz aos pneus, pois é crucial a gestão da temperatura dos pneus e isso afeta a estabilidade dos carros e o desgaste dos pneus. Essas tecnologias deixaram de ser públicas, embora a FIA tenha os dados e possa ter acesso aos mesmos durante e no término das corridas.

A temporada de 2026 arranca já entre os dias 27 de Fevereiro e 01 de Março de 2026!

Conseguimos ver uma mudança e a Liberty Media pode tentar trazer isso para o MotoGP num contexto diferente. Digo isto porque, atualmente, as comunicações entre o piloto e as boxes são nulas. Apenas as boxes conseguem emitir informações, mas com muitas limitações: pitboards e mensagens no dashboard das motas.

Tendo em conta estas limitações, é extremamente difícil comunicar a um piloto no meio da curva que o piloto à frente está com o pneu traseiro com sobreaquecimento, ou vice-versa.


Exemplo 1 (Mensagem irrelevante):

Acosta lidera e o seu pneu traseiro está muito quente e está a perder aderência. Bezzecchi vai colado ao piloto espanhol.

A equipa quer informar Bezz, mas só tem duas hipóteses: usa o pitboard (só vai ver essa mensagem na próxima volta) ou usa mensagem no dashboard (pode não ver no momento, pois vai muito colado ao piloto que está à frente).

Se Acosta estiver lento e com problemas nos pneus, Bezzecchi consegue aperceber-se disso.

Exemplo 2 (Mensagem relevante):

Acosta lidera, está com problemas de sobreaquecimento nos pneus e a equipa observa este problema na transmissão televisiva.

A equipa informa Bezzecchi para apertar o ritmo, pois Acosta tem problemas que Bezz não consegue ver. O piloto espanhol está a 5 segundos de alcance e a 5 voltas do fim.

No exemplo 2, conseguimos observar que a informação pode ajudar Bezz. O piloto italiano, a 5 voltas do fim, podia estar conformado com o 2.º lugar e não tentar arriscar o primeiro lugar, quer por falta de pneu, quer por gestão de combustível. O que quero dizer é que Bezz ao menos tem essa informação e poderia tentar fazer o melhor possível na sua situação caso conseguisse atacar nas últimas voltas.


Circuitos citadinos em MotoGP

A grande controvérsia chegou em força com Carmelo Ezpeleta a dizer em entrevista que o MotoGP pode adaptar-se sem grandes problemas e pode competir, por exemplo, em Las Vegas. Carmelo afirmou que era uma questão de adicionar escapatórias maiores, mas o problema não é tão simples de resolver.

Esta situação é bastante estranha, porque vivemos num momento em que vários pilotos se queixam do tamanho da gravilha, como foi o caso do Autódromo Internacional do Algarve mais recentemente.

Recordamos ainda o momento em que a mota de Pedro Acosta quase saltou a vedação e voou em frente ao operador de câmara nos treinos livres do GP da Hungria, num momento de bastante tensão para todos.

Tentámos perceber como um circuito citadino — e damos o circuito citadino de Las Vegas como exemplo — se poderia adaptar para receber uma competição de MotoGP num futuro próximo.

Atualmente as pistas precisam de ter graduação “A” para receber as MotoGP.

Para adaptar hoje o circuito de Las Vegas, são necessárias escapatórias em gravilha e, se as paredes/muros estiverem próximos, são necessários air-fences para absorver o impacto das motas e possivelmente dos pilotos.

Ilustração da Liberty e Motas em Pista
Tudo se resume ao investimento.

Resumo das condições de segurança necessárias:

  • Escapatórias em asfalto – Servem para abrandar os pilotos, mas idealmente servem para que estes se preparem para entrar na caixa de gravilha. O ideal é que os pilotos não entrem na caixa de gravilha a “rebolar” e entrem já a deslizar para minimizar lesões graves.
  • Caixas de gravilha – É a 2.ª fase na tentativa de abrandar os pilotos. Basicamente, esta caixa é um buraco com alguma profundidade. Nesta caixa é colocada gravilha, idealmente de calibre pequeno, macio e redondo para proteger os pilotos em caso de queda. O ideal é que o piloto não entre nela completamente enrolado em si mesmo, como se estivesse dentro de uma “máquina de lavar roupa”.
  • Air-Fences – Basicamente são almofadas de ar; servem para absorver motas e pilotos. São os últimos mecanismos de proteção minimamente seguros para motas. Estes dispositivos dissipam bastante energia. Podemos encontrar bastantes destas proteções no circuito de Jerez de la Frontera.
  • Pneus de proteção – Regra geral, as motas nunca deveriam chegar a tocar nestas proteções.
  • Vedações – Regra geral, as motas nunca deveriam chegar a tocar nestas proteções.

Tudo isto deve ser homologado pela equipa técnica da FIM. São eles que dão as autorizações e o aval para que os Grandes Prémios aconteçam.

A discussão sobre segurança ganha ainda mais força no contexto Liberty Media MotoGP, sobretudo quando se fala em circuitos citadinos.


Em relação ao traçado propriamente dito, deverá ter as seguintes condições:

  • A reta principal não deverá exceder os 2 km de comprimento – É mais que sabido que a Dorna está a tentar baixar as velocidades. Com a diminuição da cilindrada dos motores de 1000 cc para 850 cc e com as reduções de aerodinâmica, as velocidades em reta não deverão aumentar.
  • Largura da pista – Também tem de obedecer às regras apertadas da FIM para o MotoGP. O mínimo que a pista pode ter em largura é 9 metros no seu ponto mais estreito, e na reta da meta deverá ter o mínimo de 12 metros.
  • Centro Médico – Deverá ter um centro médico bem equipado, pois a Dorna tem médicos cirurgiões que acompanham todos os GP. Se realmente acontecer a chegada dos GP a circuitos citadinos, acreditamos nós que o número de visitas ao centro médico irá, infelizmente, aumentar.
  • Local de aterragem para 2 helicópteros – Normalmente existem 2 helicópteros no local: um para a transmissão televisiva e o outro para a equipa médica, se for necessária uma rápida evacuação para o hospital mais próximo.

Se tiveres interesse, deixo aqui o link oficial da FIM para veres todos os detalhes sobre homologações: Clica aqui!


Harley-Davidson Bagger World Cup

Como referimos anteriormente, a Dorna e a Liberty Media estão a investir para captar novos públicos, e um deles é o grande público americano.

A introdução da Harley-Davidson Bagger World Cup é uma das atrações para o público americano. Tal como o nome indica, são motas comuns, mas de competição.

A Dorna diz que esta nova série não vai substituir diretamente nenhuma categoria, como o Moto2 ou o Moto3, mas temos a opinião de que irá substituir o MotoE, que terminou em Portimão em 2025. Ainda não se sabe ao certo o número de equipas nem de pilotos, mas é expectável que sejam entre 16 a 20 pilotos nesta competição. Ao que tudo indica, irão ser 6 rondas.

Esta aposta reforça a estratégia Liberty Media MotoGP, focada em conquistar o público norte-americano e expandir o alcance do desporto.


Opinião geral

Alguns comentadores em fóruns on-line expressaram preocupações sobre a entrada da Liberty Media, citando possíveis desafios no mercado norte-americano. Os utilizadores das redes sociais espalhados pelo mundo acreditam que o impacto vai ser negativo, pois temem que os responsáveis e atuais investidores não entendem muito do assunto no que toca ao mundo do motociclismo, e podem cometer erros que vão comprometer este pequeno nicho.


A nossa opinião

Em jeito de conclusão, acreditamos que as alterações que estão a ser feitas vão aumentar a visibilidade do desporto motorizado, na vertente do motociclismo. Achamos que vai impulsionar a marca “MOTOGP” e vai acrescentar imenso valor num futuro bastante próximo a nível mundial.

É normal, aos nossos olhos, que tentem novos mercados, como o americano, e que tentem novas maneiras de fornecer o seu serviço e dar um novo olhar e cativar novas pessoas para o mundo do motociclismo.


Em resumo, alguns pontos positivos em cima da mesa:

  • Netflix – Tal como a Fórmula 1, a Netflix, através de parcerias, pode vir a ter interesse numa série documental mais profunda, como o Drive to Survive. Recordamos que o MotoGP tentou algo parecido, mas sem muito sucesso.
  • Mais espectadores – Com mais telespectadores vem mais receita vinda da publicidade. O dinheiro é quem manda, e este é um dos pontos cruciais para o investimento por parte da Liberty Media.
  • Introdução à América do Norte – Um ponto crucial, pois os americanos gostam de motociclos, isso é garantido; apenas falta apelar ao lado mais americano para que vejam o produto. Para isto, o espetáculo irá passar para primeiro lugar e a competição passa para segundo plano.

Nós, como amantes do motociclismo, apenas nos resta esperar e acompanhar em detalhe estas pequenas mudanças para 2026, pois certamente iremos ter surpresas agradáveis. Resta agora observar como evolui o projeto Liberty Media MotoGP e que impacto real terá no futuro da modalidade.


Escrito por: Osvaldo Figueiredo, analista de corridas e fundador do PneusQuentes.pt


FAQ

Qual é o principal objetivo da Liberty Media ao investir no MotoGP?
A Liberty Media pretende aumentar o retorno do seu investimento, expandir audiências, captar novos assinantes e desenvolver novas formas de tornar o MotoGP mais atrativo globalmente.
Que mudanças já foram visíveis nas transmissões televisivas?
Foram feitas alterações subtis, como a nova disposição dos pilotos durante os hinos e a introdução experimental da temperatura interna dos pneus apresentada em gráfico de cores.
Por que apenas a KTM revelou temperaturas internas dos pneus?
Não se sabe se foi por obrigação contratual ou por cedência voluntária. Até ao momento, só a mota de Pedro Acosta exibiu esses dados, podendo tratar-se apenas de um teste para avaliar o interesse do público.
Esta partilha de dados é inspirada na Fórmula 1?
Sim. A Fórmula 1 já exibiu estas informações no passado, mas deixou de o fazer após protestos das equipas, que não queriam expor detalhes técnicos aos rivais. A Liberty pode tentar adaptar esta abordagem ao MotoGP.
Porque é difícil comunicar com o piloto durante a corrida?
No MotoGP não existem comunicações rádio piloto-equipa. A equipa apenas pode transmitir mensagens através do pitboard ou do dashboard, ambos com limitações relevantes em situações críticas.
A informação televisiva pode influenciar estratégias de corrida?
Sim. Dependendo da situação, dados como o estado dos pneus podem ajudar um piloto a atacar ou gerir melhor a corrida, como nos exemplos entre Acosta e Bezzecchi mencionado no texto.
É possível realizar corridas de MotoGP em circuitos citadinos como Las Vegas?
Tecnicamente é possível, mas exige profundas adaptações: escapatórias adequadas, caixas de gravilha, air-fences, homologação FIM e melhorias significativas de segurança — o que dificilmente se consegue num circuito citadino tradicional.
Quais são os principais requisitos de segurança para pistas MotoGP?
Incluem escapatórias em asfalto, caixas de gravilha calibrada, air-fences, pneus de proteção, vedações seguras, centro médico equipado e espaço de aterragem para dois helicópteros. Tudo deve ser homologado pela FIM.
Porque há polémica em considerar Las Vegas para MotoGP?
Pilotos têm alertado para problemas de segurança noutros circuitos, como gravilhas inadequadas. Além disso, o incidente de Acosta na Hungria reforçou a preocupação com pistas sem zonas de escape suficientes — um risco ainda maior nas ruas de Las Vegas.
Qual o objetivo da Harley-Davidson Bagger World Cup?
A competição foi criada para atrair o público norte-americano com motas familiares ao mercado dos EUA. Apesar de não substituir oficialmente nenhuma categoria, poderá ocupar o lugar deixado pelo MotoE, terminado em 2025.
Quantas equipas e rondas terá a Bagger World Cup?
Ainda não está confirmado, mas estima-se entre 16 e 20 pilotos e cerca de 6 rondas na temporada inaugural.
Quais são as principais preocupações dos fãs sobre a entrada da Liberty Media?
Muitos temem que a Liberty não compreenda totalmente as especificidades do motociclismo e que isso leve a decisões que possam prejudicar o desporto, sobretudo num nicho tão técnico e sensível como o MotoGP.
Qual é a análise geral sobre o impacto da Liberty Media?
O impacto tende a ser positivo: maior visibilidade global, novas abordagens de promoção, expansão para o mercado americano e possibilidade de conteúdos estilo Netflix que podem atrair novos espectadores.
Por que a expansão para os EUA é tão importante?
Os americanos têm forte cultura motociclística. Para conquistar esse mercado, a Liberty pode priorizar espetáculo e entretenimento, o que pode aumentar audiências e receitas publicitárias.
O que se espera para 2026 com o projeto Liberty Media MotoGP?
Esperam-se várias mudanças e possíveis surpresas, sobretudo na forma como o desporto é apresentado e promovido. A expectativa é de que o MotoGP ganhe relevância internacional e novas formas de atrair público.

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