Introdução:
Vamos desvendar o porquê dos pilotos e as equipas usarem monolugares de anos anteriores nestes “Testes de Carros Anteriores” e saber se podem ajudar a desenvolver novas versões e melhorias nos carros atuais e futuras versões.
Antecipo-me já e a resposta é um redondo não!
Para isso temos um complexos simuladores de F1 e túneis de vento.
Explico já de seguida.

Um pouco de história e contexto
Nos anos 60, os primeiros testes em carros de Formula 1 eram realizados testes às asas dianteira e traseiras mas a sua aplicação na vida real só aconteceu em 1968 em que os monolugares começaram a ganhar a forma inicial que conhecemos hoje.
Antes não existiam asas, os fabricantes trabalhavam a gestão da aerodinâmica de uma forma muito simples e as equipas testavam os seus carros em estradas privadas e em sessões oficiais.
Na altura não havia acesso a dados, simulações ou túneis de vento. A única fonte de informação era na verdade o feedback do piloto.
Marcas como Ferrari, Brabham e a Lotus foram as principais responsáveis para a drástica mudança visual e de performance aerodinâmica para as quais conhecemos hoje.
Os fabricantes começaram a investigar com mais detalhe as vantagens e a explosão de velocidade em curva aconteceu um pouco mais tarde nos anos 70 quando a Lotus introduziu o efeito de solo.
Toda esta evolução histórica levou a que a FIA restringisse severamente os testes para impedir custos astronómicos..
Efeito de Solo
Graças à pesquisa das asas traseiras e dianteiras era preciso gerir o fluxo de ar que atravessa o monolugar e manter as pressões estáveis e ideais foi crucial.
Com isto apareceu a necessidade de gerar o efeito de solo, através de saias laterais para canalizar o ar por baixo do carro e com isto gerar Downforce, que basicamente é: Quanto maior é a velocidade mais o ar empurra o carro para baixo , com isto gera o chamado downforce. Ao criar este efeito o carro consegue curvar a velocidades mais altas sem comprometer a aderência dos pneus.
Avanços tecnológicos
Com o passar dos anos, novas técnicas e materiais eram descobertos e as equipas começaram a equipar os seus carros com motores mais potentes e materiais mais leves, tal como alumínios e outros derivados.
Em 1981 foi introduzida pela primeira vez a fibra de carbono: Esta é mais leve e mais segura do que alumínios usados anteriormente.
Nos anos 90 apareceram também motores com turbo e com isso os modelos de centralinas começavam a ficar mais robustos e avançados tecnologicamente. Tecnologias novas como controlo de tração, ABS ( ambos atualmente banidos desta competição) e os chassis em carbono tornaram-se práticas standard.
Em 2000 sistemas como KERS e, mais tarde, unidades híbridas extremamente eficientes ocuparam bastante o tempo de engenheiros para obter o máximo de rendimento e para isso túneis de vento e simuladores mais sofisticados entraram em ação na busca de mais velocidade e entender melhor os efeitos aerodinâmicos.
Foi nesta altura que os engenheiros começaram a recolher dados dos monolugares em tempo real e com isto ajudar os pilotos a fazer pequenos ajustes em pista, o que trouxe enormes vantagens no que toca a baixar os tempos por volta.
Estes carros são o pedigree da industria e verdadeiros embaixadores da velocidade a nível mundial.
Testes de carros de temporadas anteriores: O que são e como funcionam
Por definição estes carros são versões antigas dos carros atuais e são usados para:
- Apresentações e exposições: ( Goodwood Festival of Speed)
- Publicidade: (por ex: RedBull)
- Promover eventos : Hotéis, museus entre outros.
- Corridas de exibição: Como a Estoril Classics
Estes monolugares ao contrário que muita gente pensa, não são usados para testar novos componentes, mas sim para os pilotos ganharem tempo em pista, pois não é possível usar um Formula 1 na atual versão sem autorização expressa da FIA.
As versões atuais, ou futuras, apenas podem ser usadas em dias de filmagens, testes privados autorizados, ou em fins de semanas de Grandes Prémios.
É por causa destas imposições que é importante os teste de TPC para que pilotos como Sergio Perez, e Bottas por exemplo tenham tempo em pista, em condições reais (não apenas em simulador) para que se treinem e estejam completamente preparados, uma vez que não podiam competir em carros de Formula 1 atuais.
Com estes testes os pilotos da nova equipa de F1 Cadillac, vão iniciar o campeonato com a mente preparada e com memória muscular do que é competir num monolugar de Formula 1.
Equipa para um dia de testes / evento
Para conseguir ligar o carro são precisos mecânicos e engenheiros, por isso, a gestão destes eventos é grandemente preparada com alguma antecedência, não é só rodar a chave para ligar o carro.
É necessário várias pessoas no paddock, e o numero de pessoas pode variar dependendo do propósito do teste ou evento.
Se for um evento, é preciso adaptar a suspensão para uma estrada normal, ou seja ajustes para aumentar a distancia do solo da suspensão.
A Redbull é a equipa que usa mais os seus carros para promover os seus eventos e conta com várias estrelas como David Coulthard, atual embaixador da marca, ou Daniel Ricciardo que promovia a marca em anos anteriores quando era piloto de testes.
Exemplos de um dia de filmagens
Atenção que isto não se trata de um TPC, mas sim de uma das várias opções que as equipas têm disponíveis para que os seus pilotos rodem na pista com carros atuais, sem ser em sessões oficiais e apenas para marketing/shakedown com velocidades limitadas a 100km ou 200km.
Neste vídeo abaixo é apenas um exemplo disso mesmo. Em 2016, Daniel Ricciardo , piloto da RedBull Racing participou no filming day. Estas imagens são apenas um exemplo de quão restrito pode ser usar um carro atual de Formula 1 com a permissão da FIA.
O local foi Barcelona e o ano era em 2016.
Limitações em melhorar a geração atual com carros antigos
É extremamente difícil melhorar as novas versões dos carros recorrendo aos modelos antigos.
Principais problemas:
- Componentes eletrónicos: É praticamente impossível conjugar tecnologias antigas com tecnologias novas simplesmente porque o resultado desses ensaios não vai ser fidedignos.
- Aerodinâmicas: Neste campo também é impossível e testar em túnel de vento geralmente é mais fiáveis e menos dispendiosos.
- Pneus disponíveis: Os pneus da Pirelli não podem ser comprados diretamente ao fornecedor pois simplesmente não estão disponíveis. A fabrica faz o planeamento dos pneus antes da temporada começar e gere o stock e fabrico ao longo da temporada para obter a borracha mais previsível possível para todas as equipas. Porem a Pirelli pode fornecer pneus nestes TPC com vista a obter mais informações sobre novos pneus que estão a testar.
Lê aqui como os simuladores (esses sim) trabalham para melhorar os carros atuais!
Regras e limitações
Existem algumas regras e algumas implementadas para 2026 tais como:
- Idade do carro: O carro tem que ter pelo menos um ano de antiguidade ( a FIA relaxou um pouco nas regras no novo regulamento para 2026 – secção B11.3.2 do regulamento)
- 4 dias de testes: Os pilotos oficiais de cada equipa têm um limite de 4 dias no total e também uma quilometragem máxima de 1.000 Km
- Proibição de usar peças novas: Mesmo que as equipas quisessem está completamente proibido o uso de componentes novos.
- 20 dias por ano: É o limite total para cada equipa, e nestes dias estão incluídos os 4 dias dos pilotos oficiais.
- Escolha dos circuitos: Estão banidos da escolha os circuitos que nos próximos 2 meses recebam um Grande Prémio.
- Apenas um carro: Segundo a secção B11.3.4, apenas um monolugar pode estar disponível por teste.
- Pista com homologação: Apenas pistas com homologação FIA Grade 1 ou FIA Grade 1T Circuit Licence, podem receber o teste.
- Pneus Oficiais: As equipas apenas podem usar pneus fornecidos pela Pirelli.
- Máximo de 9 horas por dia: Devem também respeitar os procedimentos de bandeiras vermelhas e finais de sessão.
Mais uma vez a FIA é clara.
Apenas quer o desenvolvimento dos pilotos e procedimentos e não desenvolvimentos aerodinâmicos dos monolugares.
Existem outros testes como o THC (Testing of Historic Cars):
A FIA neste caso é mais branda e impõe menos restrições.
Podes ver mais sobre estas limitações neste link que contem o PDF oficial da Formula 1 e os seus regulamentos
Conclusão : O Homem acima da Máquina
Ao contrário do que muitos fãs poderiam esperar, os Testes de Carros Anteriores (TPC) não são o “laboratório secreto” onde as equipas desenvolvem as armas para o próximo campeonato. A teia de regras da FIA, desde a proibição de peças novas até à limitação de sensores, garante que o foco destes dias se mantém puramente no elemento humano.
Num desporto onde a tecnologia domina, os TPC tornaram-se o ginásio vital para pilotos como os da recém-chegada Cadillac ou veteranos que precisam de recuperar o ritmo, como Hamilton na Ferrari.
Servem para afinar reflexos, criar memória muscular e adaptar o corpo às forças G, sem que isso signifique uma vantagem técnica desleal para o carro do ano corrente.
Portanto, da próxima vez que vires uma notícia sobre um piloto a rodar num carro de há dois anos, lembra-te: ali não se está a testar a máquina, está-se a afinar o atleta.

Sobre o Autor
Osvaldo Figueiredo é o pseudónimo do fundador do PneusQuentes.pt . Apaixonado por MotoGP, Fórmula 1 e desporto motorizado, combina experiência jornalística com conhecimento em engenharia e estratégia de corridas, oferecendo análises detalhadas e notícias confiáveis para fãs de automobilismo.




